segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Vida, o Universo e Tudo Mais


Existem 3 formas de se adquirir conhecimento: experimentação, dedução lógica, ou através de ensinamentos que partam de alguma autoridade no assunto que se deseja aprender.

Nada garante que a tal autoridade estará ou não certa quando tentar te transmitir algum conhecimento (os interessados podem pesquisar sobre a falácia "apelo à autoridade")... E existem certas coisas que não podem ser verificadas empiricamente, seja devido a questões técnicas e/ou econômicas (LHC, por favor, volte!), ou porque ninguém ainda concebeu algum experimento que permita que a verificação desejada possa ser testada.

Nos resta, nesses casos, a dedução lógica.

Essa introdução toda foi escrita de modo a minimizar comentários idiotas que possam vir a ser feitos aqui.

- Agora, eu escreveria que ninguém visita esse blog, de qualquer forma, mas já estou ficando sem paciência para escrever isso em tudo quanto é texto... Acho que agora vou só colocar uma sigla: NVEBM (Ninguém Visita Esse Blog, Mesmo). -

Esse texto tratará brevemente sobre os conceitos de divindades e de vida após a morte.

Primeiramente, divindades:

Para ser deus, a criatura deve ser, conceitualmente, onipresente, onipotente e onisciente. E todos esses conceitos geram problemas. Vejamos a onisciência, por exemplo: se deus sabe o futuro, isso quer dizer que ele já está determinado. E, com um futuro determinado, não pode haver livre-arbítrio... Precognição e livre-arbítrio são coisas mutuamente excludentes. Se tudo já está definido, as pessoas não tomam decisões por conta própria. Não há mais responsabilidades. Nada do que acontece é culpa de alguém. Tudo já foi decidido por deus. E, se assim não o fosse, isto é, se deus deu livre arbítrio às pessoas, ele não conhece o futuro, logo, não é onisciente, logo, não é deus.

Alguém pode pensar "tá, tudo bem, o livre-arbítrio não existe, e eu não passo de um autômato, mas deus existe" (sim, já ouvi isso), mas aí vem uma tal de mecânica quântica e excentricidades naturais afins, que dizem que a realidade é probabilística... e puft, foi-se embora o determinismo (foi mal, Einstein)! Logo, nada de se conhecer de antemão o futuro, nada de onisciência, e nada de divindade.

Então, menininhas que consultam seus horóscopos, vocês já podem parar de fazer isso. E, nesse ponto em particular, caso não estejam convencidas, peguem aquela formulinha da Lei da Gravitação Universal e, por exemplo, substituam os valores das massas com a sua, no momento em que nasceu, e a de Plutão (procure na Wikipédia), e a distância você pode aproximar para a distância entre a Terra e Plutão, que eu garanto que não fará diferença para a conta... Viram só que valor medíocre tem a Força obtida? Agora, refaçam a conta considerando, sei lá, a massa da cama em que sua mãe estava no momento em que pariu você, e a distância (ínfima) que você estava da cama ao nascer... Muito maior que o valor obtido na outra conta, não? E então, alguém chocado por saber que objetos na Terra deveriam ter mais influência no seu "horóscopo" do que planetas que, como o Vasco, foram rebaixados para a segunda divisão?

Mas chega de divagar.

A onipresença também é um problema... Lembrem-se das aulinhas de biologia da escola (só para ilustrar o conceito)? Lembram da "membrana citoplasmática"? Entre outras definições, não se dizia que era ela a "separar a célula do meio externo"? Então, a "consciência" segue o mesmo princípio... É o que define que "você é você", e não uma outra pessoa ou coisa... É o que te dá a noção do "eu"... Para se estar em absolutamente todos os lugares ao mesmo tempo, é necessário "ser" todas as coisas... E o "ser" todas as coisas implicaria na ausência dessa "consciência" que separa o "eu" do "resto"... Logo, a onipresença implica na não-existência de uma divindade, que seria uma entidade toda-poderosa que teria ciência de si própria.

E não, Padawan, nada do que eu disse até agora reforça a sua "crença" na existência de uma "Força" que rege o universo... Beber Yakult não aumentará sua quantidade de midi-chlorians (lactobacilos vivos Jedi)... E o mesmo vale se você quiser trocar "força" por "energia" (se bem que eu acharia hilário tentar ver quantos Joules, por exemplo, deus tem)... As Leis da Física estão aí, o Universo está aí, a Natureza está aí, e nada disso está nem aí para você. Somos irrelevantes para o cosmo, gostemos ou não disso. Mais uma vez, ele não dá a mínima... Até porque é desprovido de consciência, instinto, ou o que for; ele simplesmente é.

A onipotência é o problema mais "manjado" de todos: "pode deus criar uma pedra tão pesada que nem ele possa levantar?", e aí está o paradoxo.

Vamos, agora, abordar o além-vida:

Existem as Leis da Física, existe a matéria, existe a energia, existe informação (Shannon, você era sinistro - outra divagação...), que representa como tudo isso se inter-relaciona...

O que somos "nós"? Somos um punhado de impulsos elétricos e reações químicas... Somos o que está armazenado em nossas cabeças... Sem o meio de armazenamento, não somos nada... O que seria a "alma", o "espírito", ou o que for? Se é "energia", não importa, deveria ser o meio em que estaria armazenada a informação referente ao "quem sou eu"... E imagina só que bagunça não seria se tentar estruturar energia de modo que isso pudesse armazenar informação? Não são bits "correndo" por um barramento; não é um sinal modulado "correndo" pelo espaço... Seria energia organizada de modo a representar toda a experiência de vida de um ser humano e, mais que isso, capaz de se adaptar e mudar na medida em que novas experiências são "vivenciadas" (termo meio que inapropriado, caso se considere que se estaria morto)... Seria necessário muito mais energia ainda para se manter tal organização, e se modificá-la de maneira ordenada... Seria uma confusão tão grande que seria um fenômeno facilmente observável e mensurável... E, como até hoje não o foi...

E isso de que "a ciência fecha os olhos para os fenômenos sobrenaturais" é conversa fiada... Primeiro que, se algo acontece, é porque a natureza assim o permite, logo, não é "sobrenatural"... Segundo que há, sim, experimentos nesse sentido... Um exemplo de um experimento desses foi conduzido recentemente em hospitais na Inglaterra, se não me engano... Sabem aquelas pessoas que dizem que ficam voando acima de seus corpos em cirurgias? A ciência médica já explicou isso, mas as pessoas não ficaram convencidas... Então, os cientistas resolveram colocar prateleiras em alturas consideráveis nas salas de cirurgia, e sobre as prateleiras, colocavam fotos deitadas, de modo que quem estivesse na sala não conseguisse vê-las... Isto é, somente gente flutuando seria capaz de ver as fotos... E, até o dia em que o resultado do experimento foi divulgado, qual foi o total de fotos descritas pelos "pacientes voadores"? Não vai ganhar uma jujuba quem disse "zero" porque a resposta é meio que óbvia demais...
Leitores, não me levem a mal... Eu quero acreditar em vida após a morte... Acho a idéia de ser deletado ao morrer (shift+del, isto é, sem direito a uma estadia na lixeira, inclusive) simplesmente assustadora... Eu não quero ser apagado da existência mas, novamente, infelizmente, é o que inevitavelmente vai acontecer... Como eu já falei, o universo não está nem aí para o que queremos...

Mas tudo tem um fim... Até mesmo o universo dará shutdown algum dia... Então, meninos e meninas, qual a lição que podemos tirar disso tudo? A que eu tirei foi: já que estão de passagem por aqui, de qualquer forma, pelo menos divirtam-se! Só não estraguem a diversão do próximo, afinal, ele também pode fazer isso com a sua (Teoria dos Jogos, crianças)...

P.S.: Só escrevi esse post porque, até hoje, nunca consegui explicar sequer 1/4 do que escrevi aqui a um crente (aqui usado no sentido de "pessoa que acredita em divindades e/ou vida após a morte") sem que a pessoa interrompesse a conversa abruptamente, dizendo que eu estou errado "porque sim" (será que isso poderia ser chamado de "falácia do maternal", academicamente falando?), ou então fazendo ataques à minha pessoa (não necessariamente num sentido ofensivo; pode ser simplesmente algo como "e quem é você para opinar sobre o assunto?", o que é uma falácia muito comum, na qual se ataca quem está argumentando em vez de o argumento em si, geralmente por não se ter contra-argumentos)... Ou seja, este post serviu só para extravasar, mesmo...

E sim, eu já procurei por contra-argumentos, e nunca achei nenhum (se alguém for falar bobagem com relação às Leis da Física, sugiro que antes disso teste-as, começando pela gravidade, pulando de cabeça do alto de um prédio, e de preferência antes de ter deixado descendentes)... E também já procurei por argumentos a favor da existência de divindades e de vida após a morte, mas nunca achei nenhum que não fosse ilógico, contraditório, bobo, idiota, apelasse para fé cega ou fosse simplesmente absurdo, essas coisas...

Infelizmente, o máximo que alguém pode dizer nesse sentido é "o conhecimento científico humano ainda está longe de ser completo"... Mas isso não vale de muita coisa frente ao que já se sabe.

Num próximo e também "polêmico" post, falarei sobre alienígenas e explicarei o porque de eles não visitarem este planetinha azul perdido nos subúrbios da Via Láctea!

"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?" - Douglas Adams, O Guia do Mochileiro das Galáxias

5 comentários:

Pati disse...

Estou espantada comigo de mesma de ter lido such long post em fundo preto (odeio fundo preto). Mas eu li, e me diverti. Vc deveria ter colocado as referências no final, já que toda a historinha que vc contou sobre deus onipresente-onisciente-onipotente são ideias de filósofos cujos nomes não sei, mas sei que existem :P E eu gostaria de saber.

Haha, não sabia desse experimento desse hospital inglês. Muito bom!

:)

Jiroumaru disse...

Pra quem achava que ninguém lia isso.. ahahaha

Bem, só tenho que concordar....

ghfdc disse...

O fundo preto não é culpa minha! Além do que, eu não saberia fazer melhor... Em todo caso, encare como um fundo solidário, sustentável, inclusivo e carbono zero, que economiza energia deixando os pixels pretos (ou seja, este blog é, na verdade, "verde"; já, já, obteremos o ISO 14000)... Hehehe...

E eu não tenho referências... Tirando Teoria da Argumentação, que comecei a pesquisar recentemente, por curiosidade, nunca estudei filosofia na vida. Tudo o que escrevi eu pensei sozinho, tendo como base "somente" o que sei de "ciências exatas".

Imagino que exista, sim, muita gente que chegou a essas mesmas conclusões antes de mim, mas nunca pesquisei a respeito. O que já procurei exaustivamente foram contra-argumentos, mas até o momento nunca achei nenhum.

A única referência que fico devendo, mesmo, é a do experimento na Inglaterra. Deve ser fácil encontrar no Google, mas eu fiquei com preguiça, depois de escrever um post tão longo...

E seja bem-vinda, e divirta-se!

Juliana disse...

Gostei desse experimento, não sabia que tinham feito isso mas sempre pensei em sugerir que alguém fizesse algo do gênero!

Anyhow, sem querer discordar de você, até porque eu concordo em geral com o post, mas esse argumento aqui achei que não procede: "Para ser deus, a criatura deve ser, conceitualmente, onipresente, onipotente e onisciente." Sei lá, a tia do catecismo disse isso também, mas eu nunca consegui muito conceber a idéia de todas essas características, apesar de ser capaz de conceber a idéia de Deus, com certas restições. Inclusive ela ficava um pouco chateada comigo porque eu perguntava o motivo da gente rezar pedindo ajuda a Deus se ele era onisciente e já sabia mesmo o que era melhor pra gente, e tal... mas ela superou isso, eu acho, sem muita mágoa. =)

De qualquer forma, acho que as divindades, assim como a vida aós a morte, tentam suprir um vazio que fica pela nossa incapacidade de explicar as questões que eventualmente todos formulam - de onde viemos, de onde surgiu o universo, se temos um propósito, tudo isso - na falta de uma explicação mais plausível, vai Deus mesmo. Mas, principalmente, acho que toda crença vem do nosso medo. O medo, como você disse, de levar um shift+del, o medo de ser absolutamente irrelevante perante, o medo de não poder controlar uma situação.... basta ver que mesmo uma boa parte das pessoas, religiosas ou não, têm a tendência de apelar para Deus quando elas simplesmente não têm mais como controlar a situação - no meio de um tiroteio, quando o avião está caindo, quando a doença irreversível está se encaminhando para o fim... com o medo, elas entregam na mão de Deus, na esperança de que alguém possa fazer alguma coisa por elas.
E também não acredito em *nenhum* fenômeno sobrenatural. O que quer que aconteça tem que ser estritamente regido pelas leis da física, senão, não acontece. Pode até parecer mirabolante, mas certamente tem uma explicação natural. O máximo que posso aceitar é que as pessoas acreditem que existe alguma força superior que guia as pessoas para estarem no momento certo e no lugar certo quando acontecem os "fenômenos" o que daria uma justificativa mais religiosa para um fato dentro das leis da natureza.

Desculpem pela verbose. Eu não consigo me conter às vezes =/

Beijinhos para vocês!

ghfdc disse...

Sim, moça, eu entendo o porque de as religiões terem surgido, e o porque de elas ainda existirem...

Com o texto, eu só estava tentando demonstrar que, apesar de terem razões sociais de ser, elas, como os argumentos da Defesa Chewbacca, não fazem sentido! Não são "internamente consistentes", digamos assim...

E se for para adotar "divindades limitadas", fico com a Inanna, dos sumérios (ou Ishtar, para os babilônicos)... Hehehehe...